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Os Últimos Dias na Terra

Os Últimos Dias na Terra

Mudas As Tuas Palavras, Mudas O Teu Mundo

Bruno Ervedosa, 18.01.21

Negligenciamos as nossas palavras. Nas nossas frases, pouca importância damos às palavras que usamos. Os resultados dessa falta de atenção nem sempre são os melhores. A comunicação falha e traz consequência negativas profissionais e pessoais também.

Consegue se lembrar de algum momento, pessoal ou profissional, em que escolheu mal as palavras e deitou tudo a perder…? Já me aconteceu... e perdi a conta.

As palavras têm poder. Têm o poder de criar, transformar e destruir. O uso correto das palavras consegue resultados positivos. Já o incorreto… bem, não vale a pena falar disso.

Uma palavra correta – no momento certo, na hora certa e à pessoa certa – tem resultados positivos. É ouro para quem ouve.

Em marketing, usamos algumas técnicas de copywriting que exploram muito bem esses parâmetros, para causar impacto no público-alvo. Escolhe-se as palavras certas para despertar a atenção das pessoas a que se quer chegar.

Há um vídeo muito interessante no Youtube de um cego que pede esmola com um papel que diz “sou cego, dê-me uma esmola”. Passavam muitas pessoas e nenhuma lhe dava esmola. Até que alguém, um copywriter talvez, agarrou no papel e reescreveu a frase: “Está um lindo dia, pena que não posso ver”. A nova frase vendeu a ideia e as pessoas deram esmola.

Isto serve para reforçar que as palavras têm um poder de mudar as situações.

Mude as suas palavras e poderá mudar o seu mundo.

As Experiências Agradáveis dos Fins de Semana Confinado

Bruno Ervedosa, 12.01.21

Os meus fins de semana confinado têm trazido experiências agradáveis. Não tivessem sido uma obrigação, teria dito que era uma dádiva da natureza. Longe de mim enveredar pelo caminho ambientalista neste texto, já que tanto se escreveu sobre isso. Também seria pateta da minha parte escrever sobre as questões sociais. Deixo isso para os sociólogos e para aqueles que se achem no direito de o fazer. Escrevo, isso sim, sobre as experiências que o meu filho partilha comigo e do privilégio que tenho em poder regressar ao reino da fantasia como convidado de honra das suas brincadeiras a um mundo que deixamos de perceber à medida que crescemos.

Posto isto, os meus fins de semana, mais cansativos que uma semana de trabalho, têm sido passados num mundo onde falar de pandemia e doenças não faz sentido. Porquê? Porque não há espaço para preocupação, sem ser a que brinquedo se encaixa melhor na brincadeira que se faz. Aos fins de semana, os carros foram feitos para voar e disparar mísseis, as almofadas transformam-se em armas de batalha capazes de derrotar o mais poderoso exercito, o sofá e a cama erguem-se como as mais seguras fortalezas alguma vez construídas pelo ser humano, o cesto da lenha transforma-se numa nave espacial que cruza o Universo de uma ponta a outras.

De manhã, o passeio matinal com o cão para esticar as pernas e respirar o ar puro que a serra nos dá. Há tarde, sentados no sofá, há tempo para beber o chocolate quente e assistir as aventuras do Scooby-Doo e do Tom e Jerry. Depois de jantar, no sofá e com a lareira ligada, adormecemos a ver mais um filme infantil. Pelo meio, muitas brincadeiras.

Se ser criança, ou velho é um estado de espírito, então eu confirmo isso. Sinto-me mais velho durante a semana, onde tenho de ser responsável e adulto. Os fins de semana, não sei qual de nós é mais criança. 

Deveria ser assim todos os dias da nossa vida. Ser adulto é uma treta. 

Natzweiler-Struthof: As Viagens Que Nos Mudam

Se há viagens que nos mudam, visitar o campo de concentração de Natzweiler-Struthof é uma delas

Bruno Ervedosa, 29.12.20

Para muitos seria estranho escrever sobre uma viagem em tempos de pandemia. Para mim não é estranho. É recordar os momentos e partilhá-los com todos aqueles que, da mesma forma, procuram recordar, sonhar e viver.

Transporto-me numa viagem pelo tempo ao ano de 2007, em maio. Eu e mais alguns alunos conquistamos o direito de visitar o Parlamento Europeu e participar, juntamente com outros alunos da Europa, num ciclo de debates e propostas para melhorar a qualidade do ambiente, energias renováveis e o transporte. Tivemos o privilégio de conhecer pessoas interessantes de vários países, professores e estudantes, com visões para uma Europa mais sustentável e amiga do ambiente. Mas, não é propriamente do Parlamento Europeu que quero escrever. Deixo isso para outra pessoa.

Quero escrever sobre a minha experiência em Natzweiler-Struthof, o antigo campo de concentração nazi perto da cidade. Talvez venha a discordar de mim na importância que tem para a história e para a formação cívica dos mais novos, mas, este lugar ocupa um lugar de importância paralelo ao Parlamento Europeu. Ele serve de memória para se saber o porquê de haver o diálogo entres os países da Europa e a sua união em torno de um propósito.

Foi nesse mês de 2007 que a minha perceção sobre tudo o que se passou naquele lugar mudou completamente. Sim, eu já tinha a noção da calamidade humana que ali se passou. Não somente pelas mortes físicas que ali ocorreram, mas, também, pelas mortes de espírito os carcereiros, os quais desprovidos de alma, torturaram e mataram seres iguais a eles. Ali, todos caminhavam caminham mortos e para a morte.

Olhar as fotografias e ler os que os livros nos contam, não faz justiça ao ambiente que ali se vive. Posso dizer que, passados treze anos, ainda esta presente em mim esse ambiente. Se algum dia seria possível sentir o que é desumanidade, ali é o lugar ideal. E se alguém quer colocar palavras para descrever essa desumanidade, passaria o resto da sua vida a estudar dicionário para encontrar as palavras certas.

E lá estava eu, juntamente com os meus colegas em frente ao portão de madeira e arame. Apenas se ouvia os passos nos caminhos de terra preservados do tempo em que entravam os prisioneiros. Seria aquele o som que as pessoas que ali entravam ouviam? Seria aquele o último som de liberdade que muitos ouviram antes de entrar? É possível que fosse. Não me recordo de ouvir o som do vento nas árvores, nem os pássaros a cantar. Só o som dos sapatos a calcar a terra acompanhado pelo frio.

Atravessar aquele portão tinha uma carga psicológica que, por mais impacto que tivesse, nunca chegaria ao sentiram aqueles que ali passaram, sabedores que era o início do resto das suas vidas. Mas algo muda em quem atravessa um portão como aqueles. Entrámos num lugar onde as almas dos que morreram da forma mais desumana perduram.  Dizem que as almas permanecem num local porque têm assuntos inacabados. Que assuntos ficaram pendentes daqueles que partiram ali? A saudade de um familiar? A esperança de voltar a ser livre? Um perdão? Lá era verdade tudo isso e mais alguma coisa.

Caminhamos até a um memorial com cruzes. Não havia ninguém sepultado, mas as cinzas tinham sido espalhadas sobre aquelas terras, numa tentativa de dar descanso às almas dos que ali jazem. Olhar para aquelas cruzes brancas, para mim era um simbolismo de reverência, mas, para algumas famílias, era a possibilidade de recordar um ente querido, que poderia ou não estar ali em descanso.

Mais adiante uma forca. Um instrumento de morte onde muitos perderam a vida e outros assistiram. Que pensamento ocorreria na mente de quem assistia? Seria um deles o próximo? A corda balançava com vento, mostrando a fragilidade da vida de quem foi aprisionado. Bastava alguém querer, para que um fosse enforcado. Não precisava de ser criminoso. Por vezes, era apenas um exemplo para os outros. Mas, aquela não era a única forma de morrer naquele lugar.

Em dias frios como aquele, as fornalhas acendiam. Haviam árvores e lenha à volta, mas a madeira não arde tão bem com a carne humana. Sim, carne humana. A carne daqueles que estavam mortos desde que entravam naquele lugar, também servia para manter as casernas dos soldados nazis quentes e lhe proporcionar um banho de água quente. Viva ou morta, a carne humana entrava nas fornalhas que levavam o calor para as casernas, permitindo que a água corresse quente para o banho dos soldados e descongela-se a canalização. Depois, as cinzas eram colocadas em potes e enviadas aos familiares. Porém, ficava sempre a incerteza de quem recebia as cinzas: seria aquele o meu ente querido?

Nos dormitórios onde os prisioneiros passavam as noites, as palavras de Primo Levi fazem justiça para se perceber o lugar: se aquilo era de homem ou mulher. As camas, se é que podia chamar camas, era para quantos coubessem ali. E ai de quem dissesse que estava a mais. O fraco calor humano era o que os aquecia nas noites de inverno. Homens e mulheres ali ficavam ao monte. Diferentes no género, mas iguais na condição.

Se já era hediondo o suficiente tudo o que vi, a câmara de gás ainda trouxe mais depressão. Morrer privado de oxigénio, a aflição do corpo que desesperadamente procura por oxigénio, a lutar para que entrem miseras gramas nos pulmões, para manter o coração a bombear sangue e a mente acordada. Uma morte lenta e sofredora.

Por fim, as imagens da exposição que documentavam e atestavam a veracidade de tudo aquilo que vimos. Porque, por vezes não queremos acreditar que o ser humano é capaz de fazer tudo aquilo. Como li há tempos, “Hitler foi o que cada um de nós tem a capacidade de ser”. Não passa pela mente de ninguém ser um Hitler e conduzir uma nação a agir daquela forma. Pelo menos, assim queremos acreditar, mas, nos tempos que correm e pelo que lemos nas notícias, talvez até passe na cabeça de algumas pessoas. É como se a história e o humanismo não fizessem parte da educação dessa gente, nem da sua condição humana.

Tudo aquilo porquê? Motivos políticos, económicos, religiosos, étnicos, pessoais? Tudo isso para quê? Do pó viemos e ao pó voltamos. Somos o barro que sobrou da criação.