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Os Últimos Dias na Terra

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Natzweiler-Struthof: As Viagens Que Nos Mudam

Se há viagens que nos mudam, visitar o campo de concentração de Natzweiler-Struthof é uma delas

Bruno Ervedosa, 29.12.20

Para muitos seria estranho escrever sobre uma viagem em tempos de pandemia. Para mim não é estranho. É recordar os momentos e partilhá-los com todos aqueles que, da mesma forma, procuram recordar, sonhar e viver.

Transporto-me numa viagem pelo tempo ao ano de 2007, em maio. Eu e mais alguns alunos conquistamos o direito de visitar o Parlamento Europeu e participar, juntamente com outros alunos da Europa, num ciclo de debates e propostas para melhorar a qualidade do ambiente, energias renováveis e o transporte. Tivemos o privilégio de conhecer pessoas interessantes de vários países, professores e estudantes, com visões para uma Europa mais sustentável e amiga do ambiente. Mas, não é propriamente do Parlamento Europeu que quero escrever. Deixo isso para outra pessoa.

 

Quero escrever sobre a minha experiência em Natzweiler-Struthof, o antigo campo de concentração nazi perto da cidade. Talvez venha a discordar de mim na importância que tem para a história e para a formação cívica dos mais novos, mas, este lugar ocupa um lugar de importância paralelo ao Parlamento Europeu. Ele serve de memória para se saber o porquê de haver o diálogo entres os países da Europa e a sua união em torno de um propósito.

Foi nesse mês de 2007 que a minha perceção sobre tudo o que se passou naquele lugar mudou completamente. Sim, eu já tinha a noção da calamidade humana que ali se passou. Não somente pelas mortes físicas que ali ocorreram, mas, também, pelas mortes de espírito os carcereiros, os quais desprovidos de alma, torturaram e mataram seres iguais a eles. Ali, todos caminhavam caminham mortos e para a morte.

Olhar as fotografias e ler os que os livros nos contam, não faz justiça ao ambiente que ali se vive. Posso dizer que, passados treze anos, ainda esta presente em mim esse ambiente. Se algum dia seria possível sentir o que é desumanidade, ali é o lugar ideal. E se alguém quer colocar palavras para descrever essa desumanidade, passaria o resto da sua vida a estudar dicionário para encontrar as palavras certas.

E lá estava eu, juntamente com os meus colegas em frente ao portão de madeira e arame. Apenas se ouvia os passos nos caminhos de terra preservados do tempo em que entravam os prisioneiros. Seria aquele o som que as pessoas que ali entravam ouviam? Seria aquele o último som de liberdade que muitos ouviram antes de entrar? É possível que fosse. Não me recordo de ouvir o som do vento nas árvores, nem os pássaros a cantar. Só o som dos sapatos a calcar a terra acompanhado pelo frio.

Atravessar aquele portão tinha uma carga psicológica que, por mais impacto que tivesse, nunca chegaria ao sentiram aqueles que ali passaram, sabedores que era o início do resto das suas vidas. Mas algo muda em quem atravessa um portão como aqueles. Entrámos num lugar onde as almas dos que morreram da forma mais desumana perduram.  Dizem que as almas permanecem num local porque têm assuntos inacabados. Que assuntos ficaram pendentes daqueles que partiram ali? A saudade de um familiar? A esperança de voltar a ser livre? Um perdão? Lá era verdade tudo isso e mais alguma coisa.

Caminhamos até a um memorial com cruzes. Não havia ninguém sepultado, mas as cinzas tinham sido espalhadas sobre aquelas terras, numa tentativa de dar descanso às almas dos que ali jazem. Olhar para aquelas cruzes brancas, para mim era um simbolismo de reverência, mas, para algumas famílias, era a possibilidade de recordar um ente querido, que poderia ou não estar ali em descanso.

Mais adiante uma forca. Um instrumento de morte onde muitos perderam a vida e outros assistiram. Que pensamento ocorreria na mente de quem assistia? Seria um deles o próximo? A corda balançava com vento, mostrando a fragilidade da vida de quem foi aprisionado. Bastava alguém querer, para que um fosse enforcado. Não precisava de ser criminoso. Por vezes, era apenas um exemplo para os outros. Mas, aquela não era a única forma de morrer naquele lugar.

Em dias frios como aquele, as fornalhas acendiam. Haviam árvores e lenha à volta, mas a madeira não arde tão bem com a carne humana. Sim, carne humana. A carne daqueles que estavam mortos desde que entravam naquele lugar, também servia para manter as casernas dos soldados nazis quentes e lhe proporcionar um banho de água quente. Viva ou morta, a carne humana entrava nas fornalhas que levavam o calor para as casernas, permitindo que a água corresse quente para o banho dos soldados e descongela-se a canalização. Depois, as cinzas eram colocadas em potes e enviadas aos familiares. Porém, ficava sempre a incerteza de quem recebia as cinzas: seria aquele o meu ente querido?

Nos dormitórios onde os prisioneiros passavam as noites, as palavras de Primo Levi fazem justiça para se perceber o lugar: se aquilo era de homem ou mulher. As camas, se é que podia chamar camas, era para quantos coubessem ali. E ai de quem dissesse que estava a mais. O fraco calor humano era o que os aquecia nas noites de inverno. Homens e mulheres ali ficavam ao monte. Diferentes no género, mas iguais na condição.

Se já era hediondo o suficiente tudo o que vi, a câmara de gás ainda trouxe mais depressão. Morrer privado de oxigénio, a aflição do corpo que desesperadamente procura por oxigénio, a lutar para que entrem miseras gramas nos pulmões, para manter o coração a bombear sangue e a mente acordada. Uma morte lenta e sofredora.

Por fim, as imagens da exposição que documentavam e atestavam a veracidade de tudo aquilo que vimos. Porque, por vezes não queremos acreditar que o ser humano é capaz de fazer tudo aquilo. Como li há tempos, “Hitler foi o que cada um de nós tem a capacidade de ser”. Não passa pela mente de ninguém ser um Hitler e conduzir uma nação a agir daquela forma. Pelo menos, assim queremos acreditar, mas, nos tempos que correm e pelo que lemos nas notícias, talvez até passe na cabeça de algumas pessoas. É como se a história e o humanismo não fizessem parte da educação dessa gente, nem da sua condição humana.

Tudo aquilo porquê? Motivos políticos, económicos, religiosos, étnicos, pessoais? Tudo isso para quê? Do pó viemos e ao pó voltamos. Somos o barro que sobrou da criação.

 

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